PODE A PESSOA AUTISTA SE COMUNICAR?

Luiz Henrique Magnani

Resumo


O objetivo desta apresentação é propor uma reflexão sobre autismo, linguagem e comunicação a partir de alguns referenciais teóricos tanto quanto de falas de pessoas autistas. Mais especificamente, o presente título é inspirado no texto 'Pode o subalterno falar?' de Spivak (2010) , no qual a autora explicita certa armadilha posta para pessoas consideradas subalternas, em que suas falas passam a ser sistematicamente desconsideradas independente das estratégias utilizadas para se fazer ouvir.  Além disso, remete-se também ao trabalho 'Autistas falam, mas eles são ouvidos?' de Milton e Bracher (2013). Os autores apontam que, mesmo já existindo uma produção autoral de autistas, é um material que, quando muito, tende a ser tomado na academia por matéria-prima a ser escrutinada externamente por especialistas não autistas. Questiona-se certo imaginário sobre o autismo que tende a se restringir a crianças brancas do sexo masculino que não falam e cujas vidas supostamente se resumiriam a insistir isoladamente em movimentos repetitivos. Imaginário que, academicamente inconsistente e ultrapassado, exclui e invisibiliza a heterogeneidade constitutiva do espectro, a qual inclui falantes, pessoas adultas, pessoas trans, mulheres, pessoas não brancas, entre outras. No que diz respeito à linguagem, remete-se ainda à consideração de Roy Harris (2002) sobre a vigência de certo 'mito da linguagem' e da comunicação. Ou seja, ainda é hegemônica certa visão de transparência comunicacional, na qual um emissor codifica uma mensagem com base em um código fixo universalmente compartilhado e envia a certo receptor que, tendo supostamente domínio do mesmo aparato linguístico, decodifica a mensagem em questão. Uma consequência de tomarmos a linguagem a partir dessa perspectiva é a de considerarmos ingenuamente haver certa 'completude' no código linguístico, o qual existiria em abstrato, para além da contingência das práticas e das relações sempre emergentes. Partir dessa ideia, argumento, é que traz, por consequência, uma visão de que autistas estariam em 'déficit' em termos linguísticos, apenas por utilizarem a linguagem de forma diferente de certas convenções hegemônicas e já decantadas em nossas relações sociais. Além de duas citações de pessoas autistas que servem de ilustração para os questionamentos postos, recupera-se brevemente, ainda, algumas ponderações de Rebeca Woods (2018). Em um trabalho que se debruça sobre autismo no contexto escolar, a autora mostra que a expressividade de autistas tende a ser lida como ruído ou barulho, ou seja, tende a chamar a atenção como algo que foge do esperado para o contexto escolar. Em contrapartida, boa parte da atmosfera ruidosa constitutiva do ambiente escolar e que resulta da expressividade de estudantes não autistas sequer é percebida, ou seja, é um 'barulho' que nem é ouvido, quanto mais percebido enquanto tal. Tendo levado tudo isso em consideração, finalizo argumentando ser necessário colocar em xeque certas noções vigentes de autismo e linguagem, as quais invisibilizam e subalternizam pessoas autistas – sejam elas oralizadas ou não. E, além disso, sugiro a necessidade de se praticar a escuta em relação àquilo que autistas já tem dito publicamente tanto sobre autismo, quanto sobre linguagem.

Link da conferência em podcast: https://eventos.textolivre.org/moodle/mod/forum/discuss.php?d=1290


Palavras-chave


autismo, mito da linguagem, comunicação, educação, subalternidade

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ISSN 2317-0239 (Eletrônico)

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