Variação e gramaticalização: um estudo sobre a redução fonética do item estar / Variation and grammaticalization: a study of item estar ‘be’ phonetic reduction

Frederico Pitanga Pinheiro

Abstract


Resumo: na fala, percebe-se que o item estar manifesta-se tanto em suas formas fonologicamente plenas (está, estou, estava etc.) quanto em suas formas fonologicamente reduzidas (, , tava etc.). Sob um viés Sociofuncionalista, que conjuga o aporte teórico-metodológico da Sociolinguística Variacionista aos princípios do Funcionalismo Linguístico, o presente artigo tem como objetivo analisar a redução fonética do referido item. Fazendo uma interface entre variação e gramaticalização, considerou-se cada um dos domínios funcionais que o estar recobre (verbo principal, verbo de ligação, verbo auxiliar, expressão cristalizada e marcador discursivo) como um fator de uma variável independente e foi verificado como o seu comportamento em cada função elencada influencia o fenômeno variável em tela. Os resultados apontam que a redução fonética do item estar aumenta gradativamente até chegar aos 100% de apagamento da sílaba inicial à medida que transita de um domínio mais concreto a um mais abstrato. Além disso, também é notável que a função fonte (verbo principal) e a menos gramaticalizada (verbo de ligação), em termos de pesos relativos, desfavorecem o processo de redução enquanto as formas mais gramaticalizadas (verbo auxiliar e expressão cristalizada) o favorecem. O percentual global de uso das formas reduzidas é da ordem de 96,8% – mudança quase completada nos dados analisados, que são da variedade do português brasileiro falada em Vitória, capital do Espírito Santo. Mesmo assim, ainda é possível traçar o percurso da gramaticalização por que passou este fenômeno, fato que fortalece a abordagem sociofuncionalista de fenômenos de variáveis.

Palavras-chave: sociolinguística variacionista; funcionalismo linguístico; sociofuncionalismo; gramaticalização; redução fonética; item estar; mudança.

Abstract: in the speech, it can be seen that the item estar ‘be’ manifests itself both in its phonologically full forms and in its phonologically reduced forms. Under a Sociofunctionalist paradigm, which combines the theoretical-methodological support of Variationist Sociolinguistics with the principles of Linguistic Functionalism, this article aims to analyze the phonetic reduction of this item. Making an interface between variation and grammaticalization, we considered each of the functional domains that the item estar ‘be’ covered (main verb, linking verb, auxiliary verb, crystallized expression and discursive marker) as a factor of an independent variable and was verified as its behavior in each listed function influences the variable phenomenon on screen. The results indicate that the phonetic reduction of the item being increases gradually until reaching 100% of erasure of the initial syllable as it moves from a more concrete domain to a more abstract one. In addition, it is also noteworthy that the source (main verb) and least grammatical (binding verb) function, in terms of relative weights, detracts from the reduction process while the more grammaticalised forms (auxiliary verb and crystallized expression) favor it. The overall percentage use of the reduced forms is 96.8% - almost complete change in the analyzed data, which are of the variety of Brazilian Portuguese spoken in Vitória, capital of Espírito Santo. Even so, it is still possible to trace the path of grammaticalization that this phenomenon went through, a fact that strengthens the socio-functionalist approach to variable phenomena.

Keywords: sociolinguistics variationist; functionalism; sociofunctionalism; grammaticalization; phonetic reduction; item estar ‘be’; change.

Keywords


sociolinguística variacionista; funcionalismo linguístico; sociofuncionalismo; gramaticalização; redução fonética; item estar; mudança; sociolinguistics variationist; functionalism; sociofunctionalism; grammaticalization; phonetic reduction.

References


BAGNO, M. Por uma educação sociolinguística. In: BAGNO, M. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial. 2007. p. 59-86.

BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

BYBEE, J. Mechanisms of Change in Grammaticalization: the Role of Frequency. In: JOSEPH, B. D.; JANDA; R. D. (org.). The Handbook of Historical Linguistics. Oxford: Blackwell, 2003. p. 602-623. DOI: https://doi.org/10.1002/9780470756393.ch19

BYBEE, J. Língua, uso e cognição. São Paulo: Cortez, 2016.

BYBEE, J; PERKINS, R.; PAGLIUCA, W. The evolution of grammar: tense, aspect, and modality in the languages of the world. Chicago: The University of Chicago Press, 1994.

CASTILHO, A. T. de. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

CEZARIO, M. M.; MARQUES, P. M.; ABRAÇADO, J. Sociofuncionalismo. In: MOLLICA, M. C.; FERRAREZI JUNIOR, C. (org.). Sociolinguística, sociolinguísticas: uma introdução. São Paulo: Editora Contexto, 2016. p. 45-61.

CUNHA, C.; CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

GIVÓN, T. Functionalism and Grammar. Amsterdam: John Benjamins, 1995. DOI: https://doi.org/10.1075/z.74

GONÇALVES, S. C. L.; LIMA-HERNANDES, M. C.; CASSEB-GALVÃO, V. C. (org.). Introdução à gramaticalização: princípios teóricos e aplicação. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

GÖRSKI, E. M.; TAVARES, M. A. O objeto de estudos na interface variação-gramaticalização. In: BAGNO, M.; CASSEB-GALVÃO, V.; REZENDE; T. F. (org.). Dinâmicas funcionais da mudança linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2017. p. 35-63.

GUY, G. R.; ZILLES, A. M. S. Sociolinguística quantitativa: instrumental de análise. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

HEINE, B. Grammaticalization. In: JOSEPH, B. D.; JANDA; R. D. (ed.). The Handbook of Historical Linguistics. Oxford: Blackwell, 2003. p. 575-601. DOI: https://doi.org/10.1111/b.9781405127479.2004.00020.x

HEINE, B.; KUTEVA, T. The Genesis of Grammar: A Reconstruction. New York: Oxford University Press, 2007.

HOPPER, P. J. Emergent Grammar. In: ANNUAL MEETING OF THE BERKELEY LINGUISTICS SOCIETY, 13th, 1987, Berkeley. Proceedings […]. Berkeley: Berkeley Linguistic Society, 1987. p. 139-157. DOI: https://doi.org/10.3765/bls.v13i0.1834. Disponível em: https://journals.linguisticsociety.org/proceedings/index.php/BLS/article/viewFile/1834/1606. Acesso em: 19 out 2018.

HOPPER, P. J. On Some Principles of Grammaticalization. In: TRAUGOTT, Elizabeth C; HEINE, Bernd (org.). Approaches to Grammaticalization. Amsterdam: John Benjamins, 1991. p. 59-90.

HOPPER, P. J. Emergent grammar. In: TOMASELLO, Michael (ed.). The New Psychology of Language: Cognitive and Functional Approaches to Language Structure. New Jersey; London: Lawrence Erlbaum Associates Publishers, 1998.

HOPPER, P. J.; TRAUGOTT, E. C. Grammaticalization. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

LABOV, W. Principles of Linguistic Change: Internal Factors. Oxford: Blackwell, 1994.

LABOV, W. Some Sociolinguistic Principles. In: PAULISTON, C. B.; TUCKER, G. R. (org.). Sociolinguistics: The Essential Readings. Oxford: Blackwell, 2003. p. 234-250.

LABOV, W. Padrões sociolinguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MARTELOTTA, M. E. Usos do marcador discursivo TÁ?. Veredas – Revista de Estudos Linguísticos, Juiz de Fora, v. 1, n. 1, p. 89-106, 1997.

MASCHLER, Y.; SCHIFFRIN, D. Discourse markers: language, meaning and context. In: SCHIFFRIN, D; TANNEN, D; HAMILTON, H. E. (org.). The Handbook of Discouse Analysis. Malden, MA: Blackwell, 2001. p. 189-221. DOI: https://doi.org/10.1002/9781118584194.ch9

MENDES, R. B. A gramaticalização de “estar” + gerúndio no português falado. 1999. 110f. Dissertação (Mestrado em Linguística) ‒ Programa de Pós-graduação em Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1999.

NARO, A. Variação e funcionalidade. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 7, n. 2, p. 109-120, 1998. DOI: https://doi.org/10.17851/2237-2083.7.2.109-120

NARO, A. J.; BRAGA, M. L. A interface sociolingüística/ gramaticalização. Gragoatá, Niterói, n. 9, p. 125-135, 2000.

NEVES, M. H. M. Estudos funcionalistas no Brasil. D.E.L.T.A., São Paulo, v. 15, n. esp., p. 71-104, 1999. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-44501999000300004

PERINI, M. A. Gramática do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

PINHEIRO, F. P. Tá mudando? – Uma análise sociofuncionalista da redução fonética do item estar na fala de Vitória/ES. 2019. 156f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Programa de Pós-graduação em Linguística, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2019.

ROCHA LIMA, C. H. Gramática normativa da língua portuguesa. 49. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

SANKOFF, D. Variable rules. In: AMMON, U.; DITTMAR, N.; MATHHEIER, K. J. (org.). Sociolinguistics: An International Handbook of the Science of Language and Society. New York: Walter de Gruyter, 1988. p. 984-998.

SANKOFF, D.; TAGLIAMONTE, S.; SMITH, E. Goldvarb X: A Variable Rule Application for Macintosh and Windows. Toronto: Department of Linguistics, University of Toronto; Ottawa: Department of Mathematics and Statistics, University of Ottawa, 2005. Disponível em: http://individual.utoronto.ca/tagliamonte/goldvarb.html. Acesso em: 15 jun. 2019.

SCHERRE, M. M. P. Variação Linguística, mídia e preconceito linguístico. In: SCHERRE, M. M. P. Doa-se lindos filhotes de poodle: variação linguística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola Editorial. 2005. p. 37- 71.

TAVARES, M. A. Um estudo variacionista de AÍ, DAÍ, ENTÃO e E como conectores seqüenciadores retroativo-propulsores na fala de Florianópolis. 1999. 175f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Programa de Pós-graduação em Linguística, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1999.

TAVARES, M. A. Sociofuncionalismo: um duplo olhar sobre a variação e mudança linguística. Interdisciplinar [Edição especial ABRALIN/SE], Aracaju, v. 17, p. 27-48, 2013.

TAVARES, M. A; GÖRSKI, E. M. Variação e sociofuncionalismo. In: MARTINS, M. A; ABRAÇADO, J. (org.). Mapeamento sociolinguístico do português brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2015. 249-270.

WEINREICH, U.; LABOV, W.; HERZOG, M. I. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

YACOVENCO, L. C. O projeto “O português falado na cidade de Vitória”: coleta de dados. In: LINS, M. P. P.; YACOVENCO, L. C. (org.). Caminhos em linguística. Vitória: Nuples, 2002. p. 102-111.

YACOVENCO, L. C.; SCHERRE, M. M. P.; TESCH, L. M.; BRAGANÇA, M. L.; EVANGELISTA, E. M.; MENDONÇA, A. K.; CALMON, E. N.; CAMPOS JÚNIOR, H. S.; BARBOSA, A. F.; BASÍLIO, J. O. S.; DEOCLÉCIO, C. E.; SILVA, J. B.; BERBERT, A. T. F.; BENFICA, A. A. Projeto Portvix: a fala de Vitória/ES em cena. Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, v. 56, n. 3, p. 771-806, 2012. DOI: https://doi.org/10.1590/S1981-57942012000300003


Refbacks

  • There are currently no refbacks.
';



Copyright (c) 2020 Frederico Pitanga Pinheiro

Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

e - ISSN 2237-2083 

License

Licensed through  Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional