Línguas de ritmo silábico

Luiz Carlos Cagliari

Abstract


Uma das questões mais polêmicas da história da Fonética é, semdúvida, a discussão sobre a tipologia rítmica das línguas. Fora datradição greco-latina da versificação poética, a noção de ritmo foiconfundida com a velocidade de fala, por muito tempo. No começodo século passado, surgiu a ideia da dicotomia entre língua deritmo acentual e língua de ritmo silábico, também fortementeinfluenciada pela teoria da versificação poética. Nesse mesmocontexto, surgiu um terceiro tipo de língua, chamado de línguade ritmo moraico e aplicado quase exclusivamente ao japonês.Com as pesquisas acústicas e tratamentos estatísticos de dadosgerados por análises eletrônicas computacionais da fala, a tipologiarítmica das línguas ficou mais confusa, com o surgimento de váriostipos de língua quanto ao ritmo. O presente trabalho discutealgumas dessas ideias, mostrando que houve um grande equívocopor parte de alguns pesquisadores quanto à caracterização daslínguas de ritmo silábico. A noção de moras é revisitada e seupapel é melhor definido nos estudos rítmicos da fala.

Keywords


Ritmo da fala; Moras; História do ritmo da fala.

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DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2237-2083.20.2.23-58

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