As metamorfoses do monstro: imagens da coisa no cinema e na literatura popular

André Cabral de Almeida Cardoso

Resumo


Resumo: No conto “The Things”, publicado em 2010, Peter Watts apresenta uma versão do filme The Thing, dirigido por John Carpenter, escrita do ponto de vista do monstro. Trata-se de um dos últimos elos de uma corrente de criação e adaptação que começa em 1938, com o conto “Who Goes There?”, de John W. Campbell. As mudanças pelas quais essa história passou apontam para transformações em nossas concepções a respeito da subjetividade, nossos medos e nossos desejos. A mais surpreendente dessas transformações talvez seja a conversão da criatura criada por Campbell de um objeto de horror indescritível para uma encarnação do desejo utópico, um ser que busca trazer comunhão para seres humanos isolados e fragmentados. O que mudou para fazer com que a possibilidade de ser absorvido pelo alienígena deixe de ser a temida extinção do “eu” para se tornar uma fantasia de integração e comunicação total? A criatura em “The Things” oferece uma vida em perpétuo fluxo que apaga as fronteiras da identidade. O objetivo deste artigo é discutir como a história cambiante da Coisa pode revelar alguns aspectos das transformações sofridas pelo ideal moderno de identidade e sua ligação com o corpo como o local do desejo utópico. Parte dessa história é a espetacular explosão do corpo em imagens cinematográficas e a projeção de sua interioridade para a superfície. A transformação da Coisa numa imagem marca um ponto essencial nas alterações que a noção de subjetividade vem sofrendo no mundo contemporâneo.

Palavras-chave: identidade; fluidez; cinema; utopia; monstruosidade.

Abstract: In the 2010 short story “The Things”, Peter Watts offers a version of John Carpenter’s film The Thing, written from the point of view of the monster. It is one of the latest links in a chain of creation and adaptation that starts in 1938 with John W. Campbell’s story “Who Goes There?”. The shifts this story has gone through point to equivalent shifts in our conceptions of subjectivity, our fears and our desires. Perhaps most striking among these shifts is the one that turns Campbell’s creature from an object of indescribable horror into an incarnation of utopian desire, a being who seeks to bring communion to fragmented and isolated human beings. What has changed to make the possibility of being absorbed by the alien cease to be the feared extinction of the self, and become a fantasy of integration and full communication? The creature in “The Things” offers a life in perpetual flux that erases the boundaries of the self. The aim of this paper is to discuss how the changing story of the Thing may shed some light on the transformations undergone by the modern ideal of the self and its connection to the body as the locus of utopian desire. Part of this story is the spectacular explosion of the body in film images and the projection of its interior onto the surface. The transformation of the Thing into a cinematic image marks an essential point in the alterations that the notion of subjectivity has been undergoing in the contemporary world.

Keywords: identity; fluidity; film; utopia; monstrosity.


Palavras-chave


identidade; fluidez; cinema; utopia; monstruosidade; identity; fluidity; film; utopia; monstrosity.

Texto completo:

PDF

Referências


ATTEBERY, Brian. The Magazine Era: 1926-1960. In: JAMES, Edward; MENDLESOHN, Farah (Ed.). The Cambridge Companion to Science Fiction. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

BERGER, Albert I. Love, Death, and the Atomic Bomb: Sexuality and Community in Science Fiction, 1935-55. Science Fiction Studies, v. 8, n. 3, p. 280-296, Nov. 1981.

BAUMAN, Zygmunt. Sociedade de consumidores. In: ______. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 70-106.

BOLLINGER, Laurel. Containing Multitudes: Revisiting the Infection Metaphor in Science Fiction. Extrapolation, Brownsville (Texas), v. 50, n. 3, p. 377-399, Sep. 2009.

CAMPBELL, JR., John W. [sob o pseudônimo Don A. Stuart]. Who Goes There?. In: DRAKE, David; FLINT, Eric; BAEN, Jim (Ed.). The World Turned Upside Down. Riverdale, NY: Baen, 2006. p. 361-414.

CARROLL, Noël. The Philosophy of Horror or Paradoxes of the Heart. New York; London: Routledge, 2004. Kindle edition.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Capitalisme et schizophrénie 2: Mille plateaux. Paris: Minuit, 2009.

EMERSON, Ralph Waldo. Self-Reliance. In: LAUTER, Paul et al. (Ed.). The Heath Anthology of American Literature. Boston; New York: Houghton Mifflin, 2004. p. 707-723.

HARAWAY, Donna. A Cyborg Manifesto. In: DURING, Simon (Ed.). The Cultural Studies Reader. 3. ed. London; New York: Routledge, 2007. p. 314-334.

KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. Translated by Leon S. Roudiez. New York: Columbia University Press, 1982.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

LEANE, Elizabeth. Locating the Thing: The Antarctic as Alien Space in John W. Campbell’s “Who Goes There?”. Science Fiction Studies, v. 32, n. 2, p. 225-239, July 2005.

MIÉVILLE, China. Weird Fiction. In: BOULD, Mark et al. (Ed.). The Routledge Companion to Science Fiction. London; New York: Routledge, 2009. p. 510-515. Kindle edition.

MILNER, Andrew; SAVAGE, Robert. Pulped Dreams: Utopia and American Pulp Science Fiction. Science Fiction Studies, v. 35, n. 1, p. 31-47, Mar. 2008.

PAIK, Peter Y. From Utopia to Apocalypse: Science Fiction and the Politics of Catastrophe. Minneapolis; London: University of Minnesota Press, 2010. Kindle edition.

RIEDER, John. Embracing the Alien: Science Fiction in Mass Culture. Science Fiction Studies, v. 9, n. 1, p. 26-37, Mar. 1982.

RICŒUR, Paul. Teoria da interpretação. Porto: Porto Editora, 1995.

SUVIN, Darko. Science Fiction and the Novum (1977). In: ______. Defined by a Hollow: Essays on Utopia, Science Fiction and Political Epistemology. Oxford; Bern: Peter Lang, 2010.

THE THING. Direção: John Carpenter. Produção: David Foster et al. Roteiro: Bill Lancaster. Estados Unidos: Universal/Turman-Foster Company, 1982. DVD (109 min.), son., color.

THE THING. Direção: Matthijs van Heijningen Jr. Produção: Marc Abraham et al. Roteiro: Eric Heisserer. Estados Unidos: Morgan Creek Productions/Universal Pictures/Strike Entertainment, 2011. DVD (103 min.), son., color.

THE THING from Another World. Direção: Christian Nyby. Produção: Howard Hawks e Edward Lasker. Roteiro: Charles Lederer. Estados Unidos: Winchester Pictures Corporation, 1951. DVD (87 min.), son., p&b.

VINT, Sherryl. Who Goes There? “Real” Men Only. Extrapolation, Brownsville (Texas), v. 46, n. 4, p. 421-438, Dec. 2005.

WATTS, Peter. The Things. In: DOZOIS, Gardner (Ed.). The Year’s Best Science Fiction: Twenty-Eighth Annual Collection. New York: St. Martin’s Griffin, 2011. p. 58-71.

WHITE, Eric. The Erotics of Becoming: Xenogenesis and The Thing. Science Fiction Studies, v. 20, n. 3, p. 394-408, Nov. 1993.




DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2317-2096.23.3.99-112

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2013 André Cabral de Almeida Cardoso



Aletria: Revista de Estudos de Literatura
ISSN 1679-3749 (impressa) / ISSN 2317-2096 (eletrônica)

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.