A literatura indígena como crítica da modernidade: sobre xamanismo, normatividade e universalismo – notas desde A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert

Leno Francisco Danner, Julie Stéfane Dorrico Peres

Resumo


Este texto realiza uma discussão entre literatura e filosofia-sociologia com base na correlação entre o paradigma normativo da modernidade, na versão de Weber e de Habermas, e a posição xamânica de Davi Kopenawa, com o intuito de refletir sobre os conceitos de crítica, emancipação e universalismo. A razão de tal discussão é bem direta: o paradigma normativo da modernidade fala do xamanismo como antípoda da racionalização, ao passo que, no caso de Davi Kopenawa, o xamanismo é exatamente uma voz-práxis crítica da modernidade. No mesmo sentido, o paradigma normativo da modernidade defende que a crítica, a reflexividade, a emancipação e o universalismo somente são possíveis por meio desse mesmo paradigma, em suas características de formalização, neutralidade, imparcialidade e impessoalidade. Em contrapartida, no xamanismo explicitado e representado por Davi Kopenawa, é possível perceber-se que a crítica, a reflexividade e a emancipação são dadas e viabilizadas exatamente pela vinculação sociocultural e pela pertença antropológico-ontológica – o xamanismo é crítico da modernidade como xamanismo, desde si mesmo. Com base nessa discussão, o artigo argumentará que, no caso das minorias, é somente por meio de sua voz-práxis como diferenças e a partir de sua singularidade que a sua reafirmação e a sua consequente crítica à modernidade são possíveis. É questão de vida e de morte, portanto, para essas mesmas minorias, assumir-se, constituir-se e dinamizar-se como minorias. Para isso, a literatura, em sua estrutura antiparadigmática e antiformalista, muito mais do que o racionalismo científico, pode servir como voz-práxis das diferenças, por elas, para elas.


Palavras-chave


modernidade; xamanismo; diferença; normatividade; crítica; universalismo.

Texto completo:

PDF

Referências


ALMEIDA, M. I. de; QUEIROZ, S. Na captura da voz: as edições da narrativa oral no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica; FALE/UFMG, 2004.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.

CHAKRABARTY, D. Provincializing Europe. Princeton: Princeton University Press, 2000.

CHAKRABARTY, D. Habitations of Modernity: Essays in the Wake of Subaltern Studies. Chicago: University of Chicago Press, 2002.

COSTA, S. L. Povos indígenas e suas narrativas autobiográficas. Estudos Linguísticos e Literários, Salvador, n. 50, p. 65-82, jul.-dez. 2014a.

COSTA, S. L.; XUCURU-KARIRI, R. Conversações sobre povos indígenas em práxis autobiográficas. Pontos de Interrogação, Salvador, v. 4, n. 2, jul.-dez. 2014b.

DUSSEL, E. Ética de la liberación en la edad de la liberación y la exclusión. Madrid: Trotta, 1998.

DUSSEL, E. 1492, o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.

ESTAMOS tomando água poluída, de mercúrio. O povo yanomami vai sumir. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/20/politica/1492722067_410462.html. Acesso em: 29 abr. 2017.

FANON, F. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

HABERMAS, J. Teoria da ação comunicativa (v. I): racionalidade da ação e racionalização social. São Paulo: Martins Fontes, 2012a.

HABERMAS, J. Teoria da ação comunicativa (v. II): sobre a crítica da razão funcionalista. São Paulo: Martins Fontes, 2012b.

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade: doze lições. São Paulo: Martins Fontes, 2002a.

HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. São Paulo: Loyola, 2002b.

HABERMAS, J. Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.

HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

HONNETH, A. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.

HONNETH, A. Reificación: un estúdio en la teoría del reconocimiento. Buenos Aires: Katz, 2007.

KOPENAWA, D.; ALBERT, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LATOUR, B. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. São Paulo: Editora 34, 1994.

LEJEUNE, P. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

MBEMBE, A. On the Postcolony. Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 2001.

MBEMBE, A. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014.

MIGNOLO, W. D. La idea de América latina: la herida colonial y la opción decolonial. Barcelona: Editorial Gedisa, 2007.

QUIJANO, A. Colonialidad y modernidad/racionalidad. Perú Indig., v. 13, n. 29, p. 11-20, 1992.

RAWLS, J. Justiça como equidade: uma reformulação. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SÁEZ, O. C. Autobiografia e sujeito histórico indígena. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 76, p. 179-195, 2006.

SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente. São Paulo: Cortez, 2011.

SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

WEBER, M. Ensayos sobre sociología de la religión. t. I. Madrid: Taurus, 1984.




DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2358-9787.26.3.129-156

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2017 Leno Francisco Danner, Julie Stéfane Dorrico Peres

O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira
ISSN 0102-4809 (impressa) / ISSN  2358-9787 (eletrônica)

License

Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.